Para um observador casual da cena mórmon na
primavera de 1844 deve ter parecido que Joseph Smith estava
a cavalgar mais alto do que nunca antes. Excepto as
fulminações dos anti-mórmones em Warsaw e Carthage, havia
pouco ressentimento aberto contra ele ou o seu povo. A sua
campanha presidencial estava a dar-lhe muita publicidade e,
ao subtrair o voto mórmon da política partidária, parecia
provável que apaziguaria alguns dos antagonismos resultantes
de assuntos políticos.
Na realidade, a inimizade contra os
mórmones era generalizada e perigosa. Os que levaram a sério
a campanha de Joseph viam-no como um símbolo maléfico da
união entre igreja e estado, e outros suspeitavam que ele
acabaria por renunciar à sua candidatura e declarar-se a
favor de um candidato popular. Os maçons, irritados com os
rumores de corrupção do ritual maçónico nas lojas mórmones
(que agora eram em número de cinco, três em Nauvoo e duas em
Iowa) e furiosos com a recusa de Joseph de enviar os
registos das lojas para Springfield para inspecção, estavam
determinados a revogar as dispensações e declarar
clandestinas todas as lojas mórmones.[1]
Os anti-mórmones estavam a passar resoluções pedindo a
extradição de Joseph e esperando por alguma provocação de
Nauvoo que lhes fornecesse um pretexto para acção.
Mas o pior perigo de Joseph, como ele
compreendeu perfeitamente, estava a amadurecer no interior
do seu próprio reino. "A minha vida está mais em perigo por
causa de algum pequeno palerma de um imbecil nesta cidade do
que por causa de todos os meus numerosos e inveterados
inimigos lá fora", declarou. "Estou exposto a um perigo
muito maior vindo de traidores entre nós do que de inimigos
de fora.... Posso viver como César poderia ter vivido, se
não fosse um Brutus à minha direita.... temos um Judas no
nosso meio!"[2]
Nesta altura Joseph tinha estado a
assistir há vários meses à alienação progressiva de um dos
seus homens mais qualificados e corajosos. William Law tinha
sido o seu Segundo Conselheiro durante mais de dois anos,
provando ser tão firme e incorruptível como John C. Bennet
fora traiçoeiro e dissoluto. Law tinha vindo do Canadá como
homem rico. Tinha investido em terrenos, construções e
moinhos a vapor, sustentando mais do que qualquer outra
pessoa a extremamente necessária industrialização da cidade.
A princípio Law escondeu o seu
ressentimento contra o monopólio que o profeta tinha sobre a
gestão dos terrenos dentro e à volta da cidade, embora
pensasse que isso era impróprio num homem de Deus. Tinha
ficado particularmente chocado quando Joseph ameaçou
excomungar todo o convertido rico que viesse para Nauvoo e
comprasse terra sem o seu parecer. Por fim, passou a
desconfiar do julgamento de Joseph nos negócios e recusou-se
a investir dinheiro na publicação da versão revista da
Bíblia, colocando em vez disso os seus fundos num moinho a
vapor e numa quinta de cânhamo.[3]
O profeta estava constantemente a
pedinchar dinheiro para construir o templo e a Casa de
Nauvoo, que Law pensava poder muito bem ser adiada até que a
escassez aguda de alojamento na cidade fosse aliviada. O
templo era agora o principal espectáculo no Mississipi
superior, mas os trabalhadores que suavam sobre as suas
enormes pedras viviam à base de milho seco.
A Casa de Nauvoo, por outro lado, apesar
de doações generosas e compras abundantes de materiais,
dificilmente parecia estar a crescer. Law ficou convencido,
correcta ou incorrectamente, que Joseph estava a usar os
fundos doados para o hotel para comprar mais terra, que
depois vendia com um lucro generoso aos novos convertidos.
Por fim Law e Robert Foster, que eram os
principais empreiteiros na cidade, começaram a batalhar
contra a economia autárquica que os estava a sitiar.
Compraram parte da madeira que flutuava pelo Mississipi
abaixo vinda de Wisconsin, que tinha sido destinada
exclusivamente para edifícios da igreja, e começaram a
construir casas e lojas. Como pagavam salários, ao passo que
o profeta pagava aos trabalhadores no templo e na Casa de
Nauvoo em bens e títulos de subscrição da cidade, o
resultado foi uma crise laboral desagradável.
Joseph apelou aos trabalhadores para que
continuassem nos projectos da igreja e deplorou os
"esqueletos gigantescos" de Foster que estavam a crescer por
toda a cidade. "Não há carne neles", gritou, "são todos para
interesse pessoal e engrandecimento.... Quero a Casa de
Nauvoo construída. Tem de ser construída. A nossa
salvação depende disso.... Digo aos que trabalharam na Casa
de Nauvoo e não receberam pagamento -- Sejam pacientes; e se
algum homem tomar os meios que estão postos de lado para a
construção daquela casa, e os aplicar ao seu próprio uso,
deixem-no, pois ele destruir-se-á a si mesmo. Se algum homem
está faminto, que venha ter comigo, e eu alimentá-lo-ei à
minha mesa.... Dividirei com ele até ao ultimo pedaço; e se
o homem não estiver satisfeito, vou dar um pontapé no
traseiro dele!"[4]
O afastamento entre William Law e o
profeta começou assim numa divergência fundamental de
atitudes económicas. A quebra definitiva na amizade deles,
no entanto, não veio de uma questão de finanças, mas de
fidelidade. Law observou com tristeza e suspeição Joseph a
alargar cada vez mais o seu círculo de esposas. Depois o
profeta tentou abordar a própria esposa de Law, Jane.[5]
Numa sessão violenta com o seu líder, Law
apelou a uma reforma e ao fim do deboche que estava a
corromper a igreja. Joseph argumentou, suplicou e citou o
Antigo Testamento, mas em vão. Law ameaçou que a menos que
Joseph comparecesse perante o Alto Conselho, confessasse os
seus pecados e prometesse arrependimento, ele revelaria as
seduções de Joseph perante o mundo todo.
Law mais tarde citou Joseph como dizendo:
"Antes a condenação do que isso. Se eu admitisse as
acusações que lança sobre mim, isso seria o desmoronamento
da Igreja!"
"Não é isso já inevitável?" perguntou Law.
"Então podemos ir todos juntos para o
Inferno e convertê-lo num céu expulsando de lá o Diabo! O
Inferno não é de maneira nenhuma o lugar que este mundo de
idiotas supõe, antes pelo contrário, é um lugar muito
agradável."
Ultrajado pela troça do profeta, Law
virou-lhe as costas, dizendo asperamente: "Então pode
gozá-lo à vontade, mas quanto a mim, vou servir o Senhor
nosso Deus!"[6]
Isto foi o princípio da apostasia de Law,
mas durante alguns meses foi evitada uma ruptura aberta. Tal
como muitos outros membros descontentes, Law acreditava que
Joseph era, não um falso profeta, mas antes um profeta caído
em desgraça, arrastado para a iniquidade pelos ensinos de
John C. Bennet e pelas suas próprias paixões ardentes. Ele
apegou-se às primeiras revelações de Joseph -- à pureza
original da mensagem do evangelho que fizera dele um
convertido -- e esperava que alguma coisa trouxesse o
profeta de volta à realidade.
A eleição de 1843 tinha dado aos Santos a
primeira suspeição de que Law estava em desfavor, e quando
Joseph denunciou o Judas em Nauvoo, muitos deles adivinharam
quem era o acusado. Law foi informado em privado que os
Anjos Destruidores tinham ordens para pô-lo fora do caminho,
e embora Joseph negasse de forma elaborada essa história
perante um conselho da cidade, Law não ficou inteiramente
tranquilo.[7]
Junto com o seu irmão Wilson, começou a gravitar para o
campo dos outros mórmones insatisfeitos.
Neste grupo estavam William Marks, Austin
Cowles e Leonard Soby, que se opunham radicalmente à
poligamia. Havia o jovem Francis Higbee, que nunca tinha
perdoado o profeta por tê-lo denunciado publicamente como
debochado e dissoluto durante o escândalo Bennett; também o
seu irmão Chauncey, cuja reputação em Nauvoo era pouco
melhor.
Hiram Kimball estava quase pronto a
juntar-se às fileiras deles. Como possuía uma boa porção da
terra ao longo do rio e tinha construído muitos dos cais
para os barcos a vapor, esperava cobrar ele mesmo a
acostagem; mas Joseph insistiu que isso era uma prerrogativa
da cidade e ameaçou publicamente fazer explodir os barcos a
vapor que não pagassem.[8]
Kimball, tal como Law, ficou ainda mais irritado por ciúmes,
pois Joseph certa vez tinha cobiçado a mulher dele, Sarah, e
tinha tentado em 1842 conquistá-la para ser sua esposa
espiritual.[9]
Um dos principais dissidentes era o Dr.
Robert D. Foster, cujas ofensas eram muito parecidas com as
de Kimball e William Law. Durante muito tempo ele tinha
ficado ofendido com a oposição do profeta aos seus
empreendimentos de negócios, mas ainda o procurava para
orientação em assuntos espirituais. Então, certo dia na
primavera de 1844, chegou a casa inesperadamente de uma
viagem de negócios e descobriu o profeta a jantar com a sua
esposa. Quando Joseph saiu e Foster exigiu saber o propósito
da sua vinda, a Sra. Foster recusou-se a falar.
Encolerizando-se rapidamente e excessivamente ciumento, ele
sacou da pistola e ameaçou matá-la se ela não divulgasse
tudo o que o profeta tinha dito. Pálida e aterrorizada, a
mulher permanecia silenciosa.
Então, num frenesim melodramático, Foster
pegou numa pistola de cano duplo, colocou-a na mão dela e
gritou-lhe que se defendesse. "Se não me contares, ou
disparas ou disparo eu." Nisto, ela desmaiou. Quando
recuperou os sentidos, confessou que o profeta tinha estado
a pregar a doutrina das esposas espirituais e tinha
conseguido seduzi-la.
Foster contou esta história a um pequeno
grupo de mórmones descontentes reunidos num canto de uma
mercearia -- os Laws, os Higbees, o desocupado Joseph H.
Jackson, e alguns outros. Era o sinal para uma confissão
completa. Um por um, os homens deixaram de lado a reserva e
aliviaram o fardo das suas almas. Chauncey Higbee jurou que
alguns dos anciãos principais chegavam a ter 10 ou 12
esposas cada um, e descreveu como registavam os nomes de
todas as mulheres com as quais desejavam casar num grande
livro, chamado Livro da Lei do Senhor, mantido na casa de
Hyrum Smith. Depois de os nomes serem inscritos, disse ele,
o livro era selado, e os selos eram quebrados na presença
das mulheres, que não suspeitavam de nada, e que eram assim
convencidas de que a doutrina era verdadeira e que se deviam
submeter. Jackson, que tinha tentado sem sucesso obter a mão
da filha de Hyrum Smith e já estava a planear vingança há
muito tempo, insinuou que estava a ser preparada uma
conspiração que custaria a vida de todos os Smiths em Nauvoo
dentro de duas semanas.
Dois dos homens que ouviram estas
histórias correram precipitadamente para o profeta. Ele
ordenou-lhes de imediato que registassem por escrito tudo
nos mínimos detalhes, incluindo o relato de Foster sobre a
tentativa de sedução da esposa, e em 17 de Abril publicou
estes testemunhos juramentados no Nauvoo Neighbor.[10]
Ele não se dignou negar as histórias, deixando que o choque
da publicação fosse suficiente para convencer o seu povo de
que eram mentiras.
O julgamento de Foster foi marcado para 20
de Abril de 1844. Mas quando se soube que ele tinha
arranjado 41 testemunhas e planeava transformar o julgamento
numa acusação ao profeta, um conselho reuniu-se em segredo
antecipadamente e excomungou-o junto com William, Wilson e
Jane Law.[11]
O cisma assim criado em Nauvoo era pequeno
mas perigoso. Embora fossem párias na cidade, os apóstatas
não saíram dela. Não eram só os seus empreendimentos de
negócios que os mantinham ali. William Law tinha coragem,
tenacidade e um idealismo estranho e pouco sensato. Embora
estivesse rodeado na maior parte por homens que acreditavam
que Joseph era um vil impostor, agarrava-se à esperança de
que podia levar a cabo uma reforma na igreja. Com este fim,
estabeleceu a sua própria igreja, sendo ele mesmo o
presidente, seguindo fielmente a organização do corpo
principal.
Isto em si mesmo não teria sido sério,
pois Joseph já anteriormente tinha visto profetas rivais
despontarem da relva sob os seus pés e não tinham dado em
nada. Geralmente tentavam imitá-lo, dando revelações que
pareciam secas e insípidas quando comparadas com as suas,
profetizando descontroladamente e organizando-se muito mal.
Mas Law era diferente. Na realidade, ele estava a caminho de
uma completa e desagradável desilusão, mas estava a
afastar-se da igreja dando passos para trás, procurando
ansiosamente algo no horizonte a que se pudesse agarrar,
procurando apoio em cada árvore e sebe.
O seu desejo desesperado para reformar a
igreja tornou-o muito mais formidável do que se tivesse
decidido destruir o profeta e todas as suas obras. Ao
contrário de John C. Bennett, ele estava disposto a preparar
os seus golpes para que tivessem maior efeito. E, mais
importante, ele e Foster tinham suficiente dinheiro para
comprar uma máquina de impressão. A igreja reformada haveria
de ter um porta-voz 6 semanas depois de nascer, num jornal
intitulado o Nauvoo Expositor.
Enquanto esperavam a chegada da máquina de
impressão, os apóstatas deram início a um ataque em três
frentes contra Joseph através dos tribunais. Francis Higbee
processou-o em 500 dólares sob acusação de calúnia; William
Law conseguiu que uma comissão de inquérito de Carthage
emitisse uma nota de acusação contra Joseph por adultério e
poligamia; e Jackson e Foster conseguiram uma acusação
similar por falso testemunho.[12]
Joseph não tinha medo dos juramentos que
os Laws pudessem fazer contra ele num tribunal de Carthage,
pois sabia que teriam dificuldades em provar que era
culpado. Já por 3 anos os seus funcionários tinham-no
acompanhado para todo o lado, registando por escrito tudo o
que ele tinha dito e feito. Todos os dias estavam
registados. E todas as referências ao casamento plural
tinham sido tão habilmente disfarçadas que apenas os
iniciados compreenderiam o seu verdadeiro significado. Disto
ele tinha-se certificado.[13]
O ataque de Francis Higbee ao profeta foi
combatido com uma campanha de difamação como Nauvoo já não
via desde a expulsão de Bennett. Joseph acusou Higbee de
perjúrio, sedução e adultério, dando detalhes que o grave
Times and Seasons admitiu serem "demasiado indelicados
para os olhos e ouvidos do público". Brigham Young jurou que
Higbee associava-se com prostitutas, das quais tinha certa
vez contraído uma doença venérea. Outra testemunha até
identificou a fonte da infecção como sendo uma prostituta
francesa de Warsaw, e disse que Bennett lhe tinha dado
assistência médica e que o profeta até tinha tentado curá-lo
através da oração.[14]
Chauncey Higbee foi atacado com a mesma
invectiva violenta no Nauvoo Neighbor de 29 de Maio,
quando o editor rebuscou os ficheiros secretos de
testemunhos recolhidos aquando do escândalo de Bennett e
publicou as antigas declarações juramentadas de três
mulheres que Higbee tinha seduzido com a promessa de
casamento sob o código das esposas espirituais. Portanto a
lama voou para ambos os lados.
A publicação de tais documentos era o pior
tipo de estratégia defensiva, pois Joseph não podia escapar
a ser envolvido por implicação. Aqueles que acreditavam
piamente nas suas negações da poligamia ficaram espantados
com o perjúrio prodigioso dos apóstatas, e mórmones
sensíveis que sabiam alguma coisa da verdade sobre a
poligamia recordaram-se dolorosamente da exortação de Jesus:
"Aquele de entre vós que não tiver pecado, que atire a
primeira pedra".
Os excessos de Joseph custaram-lhe o que
ele mais precisava, alguns meses de paz em Nauvoo sem
escândalos políticos ou pessoais. Tal período teria visto o
fim da eleição e a elaboração de algum tipo de solução para
a migração em direcção a oeste. A poligamia poderia ter sido
suficientemente escondida para manter os gentios sossegados
e os seus novos convertidos leais. Depois, no Texas ou no
Oregon ou em algum vale isolado nas Montanhas Rochosas ele
poderia ensinar a verdade ao seu povo.
Mas ele estava cego para o seu próprio
perigo e num sermão público em 26 de Maio forçou o seu
ataque selvagem contra os apóstatas com uma fanfarronada
irresponsável:
"O Senhor formou-me de forma tão
curiosa que eu me regozijo com a perseguição.... Se a
opressão transforma um homem sábio em louco, muito mais
o faz a um tolo. Se eles querem que um rapaz imberbe
chicoteie o mundo, subirei ao cimo de uma montanha e
cantarei de galo: vencê-los-ei sempre. Quando os factos
forem provados, a verdade e a inocência prevalecerão
finalmente.... Avancem! ó acusadores! ó falsas
testemunhas! Todo o inferno, transborde! Ó montanhas
ardentes, derramem a vossa lava! pois ficarei a ganhar
no fim. Tenho mais de que me gabar do que qualquer homem
alguma vez teve. Sou o único homem que alguma vez
conseguiu manter uma igreja inteira junta desde os dias
de Adão.... Gabo-me de que nunca homem algum jamais fez
uma obra como eu.... Como adoro ouvir os lobos uivar!"
Ele concluiu:
"Deus sabe, portanto, que as acusações
contra mim são falsas.... Que coisa, um homem ser
acusado de cometer adultério, e ter sete esposas, quando
só consigo encontrar uma. Sou o mesmo homem, e tão
inocente como era há 14 anos; e posso provar que eles
são todos perjuros."[15]
Se John C. Bennett tivesse sido editor do
Nauvoo Expositor em vez de William Law e Sylvester
Emmons, o resultado seria uma folha lúgubre. Mas Law não era
um boateiro barato e tinha uma profunda piedade pelas
esposas plurais em Nauvoo. Ele fez questão de que nada de
"carnal" entrasse no Expositor, e o primeiro número,
que apareceu em 7 de Junho de 1844, era consequentemente --
considerando os factos à disposição do editor -- um
documento extraordinariamente contido.
O principal editorial não mencionou
quaisquer nomes, apenas descreveu a história de uma típica
rapariga inglesa que tinha vindo sozinha para Nauvoo e era
cuidadosamente doutrinada nos mistérios do reino pelo
profeta. Isto era seguido por três declarações juramentadas,
assinadas por William Law, Jane Law e Austin Cowles,
testificando que todos tinham visto ou ouvido ler a
revelação que concedia a cada homem o privilégio de casar
com 10 virgens e lhe perdoava todos os pecados excepto o
derrame de sangue inocente.
A poligamia era apenas a primeira de uma
longa lista de práticas assinaladas para serem atacadas. O
Expositor foi particularmente eloquente contra a
tentativa de Joseph de unir a igreja e o estado, e a sua
procura de poder político: "Não acreditamos que Deus alguma
vez tenha suscitado um Profeta para cristianizar o mundo
através de esquemas políticos e intrigas. Não é desse modo
que Deus cativa o coração dos incrédulos; antes pelo
contrário, é através da pregação da verdade na sua própria
simplicidade original."
Disse ainda, numa alusão inconfundível ao
cargo de rei que Joseph se atribuíra: "Nós não
reconheceremos nenhum homem como rei ou legislador da
igreja: pois Cristo é o nosso rei e legislador."
Os editores atacaram as manobras
financeiras e as especulações imobiliárias de Joseph, a sua
constante denúncia de Missouri, e o seu abuso dos
privilégios que lhe eram conferidos pelos estatutos de
Nauvoo. Apelaram à revogação dos estatutos, desobediência às
revelações políticas, fim dos abusos do "poder unido"
centrado no profeta e censuraram em termos fortíssimos as
suas "imperfeições morais".
O Expositor espalhou a consternação
por toda a cidade. Aqueles que estavam a praticar a
poligamia receavam ser massacrados pelos anti-mórmones;
aqueles que tinham sido mantidos na ignorância foram
esmagados pela percepção de que todos os rumores
sub-reptícios podiam afinal ser verdadeiros.[16]
Estes aguardaram com um misto de raiva e desânimo pela
resposta do profeta.
Quando o profeta acabou de ler o
Expositor, sabia que estava a enfrentar a crise mais
grave da sua vida. O jornal tinha-o colocado em julgamento
perante todo o seu povo. Talvez se Joseph os tivesse
encarado com a verdade e tivesse ido para a plataforma no
templo inacabado e lesse para a igreja a revelação sobre o
casamento plural com a sua antiga convicção magnífica, teria
conseguido tirar aos apóstatas a sua principal arma e
libertar os seus seguidores leais de um fardo de segredo,
evasão e mentiras que se estava rapidamente a tornar
intolerável. Se tivesse revelado os seus planos para ir para
oeste, poderia ter-lhes dado esperança e um desafio.
Mas ele não tinha coragem para isso.
Apesar da metafísica elaborada que criara para justificar a
poligamia, apesar de todos os profetas do Antigo Testamento
que a tinham vivido e o sucesso da sua própria experiência,
a crise encontrou-o com uma fraca disposição. Ele estava
vazio de convicção quando mais necessitava dela.
Com uma espécie de desespero, virou-se
para William Marks, que tinha vindo tão fielmente em seu
auxílio em crises passadas com a sua sabedoria e bolsa
generosa, mas que em meses recentes se tinha afastado dele
com mágoa. Caminharam juntos pela rua abaixo na luz
brilhante do verão, transformada numa alameda pouco usada
onde podiam falar em privado, e sentaram-se no banco coberto
de erva.
"Somos um povo arruinado", começou Joseph.
"Como assim?" perguntou Marks
cautelosamente, pois tinha mantido durante tanto tempo um
silêncio incomodado que já não sabia como falar com o seu
líder.
"Esta doutrina da poligamia, ou sistema de
esposas espirituais, que tem sido ensinado e praticado entre
nós, acabará por ser a nossa destruição e ruína. Fui
enganado; é uma maldição para a humanidade, e teremos de
sair dos Estados Unidos em breve, a menos que possa ser
abandonada e a sua prática interrompida na Igreja."
O homem mais velho estava prestes a chorar
de gratidão. Isto era o que ele tinha estado à espera de
ouvir desde que vira a revelação amaldiçoada sobre a
poligamia um ano antes.
"Agora Irmão Marks", continuou Joseph, "tu
não recebeste esta doutrina, e quero que vás ao alto
conselho e farei com que sejam proferidas acusações contra
todos os que praticam esta doutrina, e quero que os julgues
pelas leis da Igreja, e os cortes, se não se arrependerem e
cessarem a prática desta doutrina, e eu irei para a tribuna
e pregarei contra [a doutrina] com todas as minhas forças, e
desta forma livraremos a igreja desta heresia danada."[17]
Mas Joseph estava apenas a atirar às
cegas, procurando uma maneira de sair daquele dilema, e os
embaraços daquela solução particular devem tê-lo feito
descartá-la quando o sol se pôs. Ele não sabia o que fazer.
Só um tema persistia em toda a sua agitação -- uma convicção
de que o Expositor tinha de ser estrangulado. Mas
aqui ele foi mais uma vez traído pela sua completa
incapacidade de lidar habilmente com a oposição, uma
fraqueza que os seus sucessos políticos e legais em Nauvoo
só tinham vindo intensificar. Ele tinha-se tornado um
autocrata que só sabia pensar em termos de supressão.
Convocando o conselho da cidade, ele
ordenou um julgamento, não dos apóstatas, mas do próprio
Expositor. Foi um processo estranho e autoritário. Não
houve júri, nem advogados, nem testemunhas de defesa. Os
conselheiros simplesmente levantaram-se, uns após outros, e
acusaram os editores de sedução, proxenetismo, falsificação
e ladroagem. O profeta foi ao extremo de dizer que tinha
sido provado perante o conselho da cidade que o apóstata
Joseph H. Jackson era um assassino.
Em seguida ele acrescentou mais uma à sua
lista de negações da poligamia, ao declarar que a revelação
sobre a poligamia mencionada no Expositor "era em
resposta a uma pergunta sobre coisas que tinham vindo a lume
antigamente, e não tinha qualquer referência ao tempo
presente."[18]
O conselho da cidade neste ponto declarou que a máquina de
impressão era caluniosa e tinha de ser destruída. Joseph
emitiu uma proclamação declarando-a um incómodo público; uma
parte da Legião marchou para o escritório, destruiu a
máquina de impressão, misturou os tipos e queimou todos os
exemplares do odiado jornal que conseguiu encontrar.
O Expositor não era o primeiro nem
seria o último jornal de Illinois a ser destruído desta
forma. Queimar máquinas de impressão era uma espécie de
desporto nas imediações da linha que ligava Mason a Dixon.
Mas o líder de uma minoria odiada entregar-se a este
desporto não era uma das liberdades da fronteira, era antes
uma violação da sagrada Constituição. Era uma quebra de
disciplina política e legal maior do que os anti-mórmones
podiam ter desejado. Joseph não podia ter feito uma coisa
melhor para os seus inimigos, já que lhes tinha finalmente
dado um assunto moral que podiam usar para lutar contra ele.
Os apóstatas fugiram para Warsaw e
Carthage. Robert Foster escreveu para o Warsaw Signal
uma declaração detalhada na qual não só descreveu a
destruição da máquina de impressão como também acusou Joseph
de uma longa lista de crimes, desde contratar Porter
Rockwell para matar Boggs até à sedução de inúmeras mulheres
mórmones. "A História não proporciona qualquer paralelo para
as iniquidades e enormidades deste tirano", concluiu ele,
"que investido de um pouco de autoridade sumária, perpetra
acções perante as quais o Céu chora e a natureza humana
recua envergonhada da sua própria depravação."
O editorial de Thomas Sharp em 12 de Junho
gritava com fúria demoníaca: "Guerra e extermínio são
inevitáveis! LEVANTEM-SE CIDADÃOS, CADA UM E
TODOS!!! Consegue ficar a olhar
e permitir que estes DIABOS INFERNAIS! ROUBEM
aos homens a sua propriedade e Direitos, sem vingá-los? Não
temos tempo para comentários; cada homem fará os seus,
QUE SEJAM feitos com
PÓLVORA E BALAS!!!"
Joseph percebeu, demasiado tarde, que
tinha soltado uma avalanche. Escreveu uma longa carta
defensiva para o Governador Ford justificando com
fundamentos jurídicos a destruição da máquina de impressão,
e enviou ordens para os doze apóstolos regressarem a casa de
imediato, com pólvora, chumbo, e uma carabina incluída
discretamente nas suas bagagens.[19]
Depois foi instruir a Legião na defesa da cidade.
Subindo para o palanque de inspecção das
tropas, o seu uniforme azul e amarelo claro vistosamente
ornamentado com botões e dragonas dourados, ficou
orgulhosamente perante os seus homens, não traindo nada do
tumulto e ansiedade que o torturavam por dentro. Fez uma
defesa obstinada da legalidade da sua posição. Desde que a
máquina de impressão fora queimada, Law e Foster tinham
obtido mandatos para a sua detenção com base na acusação de
tumulto, que com a sua usual habilidade ele tinha evitado
através do procedimento de habeas corpus do tribunal
municipal de Nauvoo. Mas ele sabia que isto era pouco mais
que um adiamento. De hora a hora os vigias traziam-lhe
notícias sobre as multidões furiosas que estavam a varrer as
ruas de Carthage e Warsaw. Multidões de missourianos e
iowanos estavam a atravessar o rio, atraídos como moscas
para o cheiro de sangue. Bandos armados já estavam a ameaçar
famílias mórmones isoladas e a empurrá-las para Nauvoo.
Falava-se de linchamentos em todo o lado -- sempre em nome
da justiça e da liberdade.
Joseph leu para os seus homens o editorial
incendiário da edição extra do Warsaw Signal para que
não tivessem ilusões sobre o que os esperava. Depois disse:
"Somos cidadãos americanos. Vivemos sobre um solo por cujas
liberdades os nossos pais arriscaram as suas vidas e
derramaram o seu sangue no campo de batalha. Esses direitos
tão preciosamente adquiridos não serão vergonhosamente
pisoteados por saqueadores à margem da lei sem ao menos um
esforço nobre da nossa parte para defender as nossas
liberdades. Estarão lado a lado comigo até à morte?"
Os milhares alinhados abaixo dele, com
firmeza e sérios nas suas fileiras bem ordenadas, gritaram
em uníssono um trovejante "Sim!"
"Está bem. Se não o tivésseis feito, eu
teria ido para ali", e esticou o braço para oeste, "e teria
levantado um povo mais poderoso." Depois, tirando a espada
da bainha, Joseph levantou-a ao céu e gritou numa voz que
ressoou sobre as fileiras do exército e pelas ruas da
cidade: "Chamo Deus e os anjos para testemunharem que
desembainhei a minha espada com uma determinação firme e
inalterável de que este povo terá os seus direitos legais, e
será protegido da violência das multidões, ou então o meu
sangue será derramado no chão como água, e o meu corpo
consignado ao túmulo silencioso!"
Notas
[1]
Isto foi feito na reunião de 1844 da Grande Loja. Veja
Proceedings of the Grand Lodge of Freemasons, Illinois, from
its Organization in 1840 to 1850 Inclusive (Freeport:
Illinois, 1892).
[2]
Discurso em 29 de Dezembro de 1843. History of the Church,
Vol. VI, p. 152.
[3]
Ibid., Vol. V, pp. 272-273; Vol. VI, pp. 164-165.
[4]
Ibid., Vol. V, pp. 285-286.
[5]
Denison L. Harris e Robert Scott, que espiaram para contar a
Joseph nas reuniões realizadas por Law e Foster, relataram
muitos anos depois que tinham visto três mulheres com véu,
uma delas a esposa de William Law, comparecer a uma reunião
e assinar declarações juramentadas dizendo que "Joseph e
Hyrum Smith tinham tentado seduzi-las; e tinham feito a elas
as propostas mais indecentes e iníquas, e desejavam que elas
se tornassem suas esposas." (Conforme relatado por Horace
Cummings, que descreveu os relatos delas no Contributor,
Salt Lake City, Abril de 1884, Vol. V, p. 255.) Thomas Ford
também relatou que Joseph tentou fazer de Jane Law sua
esposa. (Veja o seu History of Illinois, p. 322.) E
John D. Lee escreveu que Joseph queria a "amável e bonita
esposa de William Law". (Mormonism Unveiled, p. 147.)
Joseph H. Jackson escreveu em 1844 que Joseph lhe dissera
que passara dois meses tentando em vão conquistar Jane Law,
e acrescentou que Emma Smith sugeriu que lhe fosse dado
William Law como esposo espiritual. Narrative of the
Adventures and Experiences of Joseph H. Jackson, pp.
21-22.
[6]
Conforme descrito por Law no Nauvoo Expositor, 7 de
Junho de 1844.
[7]
Veja History of the Church, Vol. VI, pp. 162-165.
[8]
Ibid., Vol. VI, pp. 234, 238.
[9]
Veja a declaração juramentada de Sarah Kimball, citada na p.
306.
[10]
Veja as declarações de M. G. Eaton e A. B. Williams,
Nauvoo Neighbor, Vol. I, n.º 51. Estes foram
reproduzidos em Times and Seasons, Vol. V (15 de Maio
de 1844), p. 541.
[11]
Veja o Nauvoo Expositor, 7 de Junho de 1844.
[12]
Veja History of the Church, Vol. VI, pp. 403, 405.
[13]
Veja a declaração do próprio Joseph sobre este ponto, Vol.
VI, p. 409.
[14]
Veja os testemunhos de Joseph Smith, Brigham Young e H. J.
Sherwood no Times and Seasons, Vol. V (15 de Maio de
1844), pp. 537 e seguintes.
[15]
History of the Church, Vol. VI, pp. 408-412.
[16]
Veja as cartas de Sarah e Isaac Scott para os seus
familiares em Massachusetts, datadas de 16 de Junho e 22 de
Julho de 1844, publicadas em "The Death of a Mormon Dictator:
Letters of Massachusetts Mormons, 1843-1848" (A Morte de Um
Ditador Mórmon: Cartas de Mórmones de Massachusetts,
1843-1848), New England Quarterly, Vol. IX (1936),
pp. 583-617.
[17]
Esta entrevista foi descrita por William Marks em Zion's
Harbinger and Baneemy's Organ, Vol. III (Julho de 1853),
pp. 52-53. O relato pode ter sido colorido até certo ponto
pela sua profunda antipatia pela poligamia.
[18]
O Nauvoo Neighbor de 19 de Junho de 1844 publicou
este processo do conselho da cidade. As palavras proferidas
por Joseph que coloquei em itálico foram omitidas da
History of the Church quando o processo foi reproduzido.
Veja Vol. VI, p. 441.
[19]
History of the Church, Vol. VI, pp. 487.